Dra. Jéssica Elisa Riviera

A doença celíaca é uma condição que eu vejo com frequência crescente no consultório, mas ainda é muito subdiagnosticada.

Muitos pacientes passam anos com sintomas vagos, indo de médico em médico, tratando como “intestino sensível”, até que alguém finalmente levanta a hipótese correta.

Eu atendi no consultório uma mulher de 36 anos que reclamava de estufamento constante, cansaço e anemia que nunca melhorava, mesmo tomando ferro. Já tinha feito vários tratamentos, mudado alimentação por conta própria, mas nada resolvia. Quando investigamos doença celíaca, o diagnóstico veio positivo.

Após iniciar a dieta correta, a melhora foi progressiva e muito significativa.

Esse é um padrão muito comum.

O que é doença celíaca na prática

A doença celíaca é uma doença autoimune.

Isso significa que o próprio organismo reage contra o intestino quando a pessoa consome glúten.

O glúten é uma proteína presente em:

  • trigo
  • centeio
  • cevada
  • malte

Quando o paciente com doença celíaca consome glúten, ocorre uma inflamação no intestino delgado, que danifica a mucosa intestinal.

Com o tempo, isso prejudica a absorção de nutrientes.

Por que isso acontece

A doença celíaca envolve uma combinação de fatores:

  • predisposição genética
  • resposta imunológica alterada
  • exposição ao glúten

Nem toda pessoa que consome glúten desenvolve a doença.

Mas quem tem predisposição genética pode desenvolver ao longo da vida.

O que uma pessoa com doença celíaca costuma sentir

Aqui está um dos pontos mais importantes: nem todo paciente tem sintomas clássicos.

No consultório, os sintomas mais comuns são:

  • estufamento abdominal frequente
  • excesso de gases
  • diarreia crônica ou intermitente
  • fezes volumosas ou mal formadas
  • dor abdominal

Mas existem manifestações fora do intestino, que confundem muito:

  • anemia que não melhora
  • cansaço persistente
  • queda de cabelo
  • unhas fracas
  • perda de peso
  • osteopenia ou osteoporose precoce
  • aftas de repetição

Alguns pacientes praticamente não têm sintomas digestivos.

Em crianças, o quadro pode ser diferente

Nos pacientes mais jovens, podemos observar:

  • dificuldade de ganho de peso
  • atraso no crescimento
  • irritabilidade
  • distensão abdominal

Por que a doença celíaca pode passar despercebida

Porque os sintomas são muito inespecíficos.

Muitos pacientes recebem diagnósticos como:

  • síndrome do intestino irritável
  • intolerância alimentar inespecífica
  • “gastrite nervosa”

Sem investigação adequada, a doença pode ficar anos sem diagnóstico.

Como é feito o diagnóstico

Esse é um ponto muito importante, porque erros aqui são comuns.

O diagnóstico envolve:

Exames de sangue

  • anticorpos específicos (anti-transglutaminase, anti-endomísio)

Endoscopia com biópsia

  • avaliação do intestino delgado
  • confirmação da lesão típica da doença

Um detalhe essencial:

o paciente precisa estar consumindo glúten no momento dos exames

Se a pessoa já retirou glúten por conta própria, os exames podem dar falso negativo.

Quando eu desconfio de doença celíaca no consultório

Alguns sinais me chamam muita atenção:

  • anemia sem causa definida
  • sintomas intestinais persistentes
  • histórico familiar
  • deficiência de vitaminas
  • osteoporose precoce
  • sintomas que não melhoram com tratamentos comuns

Doença celíaca é a mesma coisa que sensibilidade ao glúten?

Não.

Essa é uma confusão muito frequente.

Doença celíaca

  • doença autoimune
  • causa lesão intestinal
  • precisa de diagnóstico rigoroso

Sensibilidade ao glúten não celíaca

  • não é autoimune
  • não causa lesão intestinal comprovada
  • diagnóstico de exclusão

Alergia ao trigo

  • reação alérgica
  • mecanismo diferente

Cada uma exige uma abordagem diferente.

O que acontece se a doença celíaca não for tratada

A inflamação intestinal persistente pode levar a:

  • desnutrição
  • deficiência de ferro, cálcio e vitaminas
  • osteoporose
  • infertilidade
  • maior risco de algumas neoplasias intestinais

Por isso, não é uma condição que deve ser ignorada.

Existe tratamento para doença celíaca

Sim, e o tratamento é muito claro.

O único tratamento eficaz é a retirada total do glúten da alimentação.

Isso inclui:

  • evitar alimentos com trigo, cevada e centeio
  • atenção a contaminação cruzada
  • leitura cuidadosa de rótulos

Não existe “reduzir um pouco”.

Mesmo pequenas quantidades podem ativar a doença.

O que muda na vida do paciente após o diagnóstico

Com a retirada do glúten:

  • os sintomas tendem a melhorar
  • o intestino se regenera ao longo do tempo
  • as deficiências nutricionais podem ser corrigidas

Mas exige disciplina.

Dificuldades comuns que eu vejo no consultório

Muitos pacientes enfrentam:

  • dificuldade em identificar alimentos com glúten
  • contaminação em restaurantes
  • dieta muito restritiva no início
  • insegurança alimentar

Por isso, o acompanhamento é fundamental.

Preciso cortar tudo que “pode conter glúten”?

Depende do caso, mas em geral, sim.

Principalmente no início, a orientação costuma ser mais rigorosa para garantir recuperação intestinal.

Acompanhamento é necessário mesmo sem sintomas?

Sim.

Mesmo que o paciente esteja bem, é importante acompanhar:

  • exames laboratoriais
  • estado nutricional
  • adesão à dieta

Um erro muito comum que eu vejo

Pacientes que retiram o glúten por conta própria antes de investigar.

Isso pode:

  • dificultar o diagnóstico
  • gerar exames inconclusivos
  • atrasar o tratamento correto

Um recado direto de consultório

A doença celíaca não é “moda alimentar” e nem apenas uma sensibilidade leve.

É uma doença autoimune que precisa de diagnóstico correto e tratamento sério.

Ao mesmo tempo, quando bem conduzida, o paciente consegue ter qualidade de vida, alimentação equilibrada e controle completo da doença.

Se existe suspeita, o melhor caminho é investigar da forma adequada, antes de fazer restrições por conta própria.