Dra. Jéssica Elisa Riviera

Se você chegou até aqui, provavelmente está sentindo aquela dor ou ardência no estômago que não te dá sossego. Talvez você já tenha ouvido de alguém que “é gastrite” — mas o que isso significa de verdade, e por que o tratamento às vezes parece não funcionar?

Deixa eu te contar: na minha prática clínica, gastrite é uma das queixas mais frequentes que recebo no consultório. E também é um dos diagnósticos mais mal compreendidos — tanto por pacientes quanto, infelizmente, por alguns profissionais. Hoje quero te explicar tudo, com linguagem clara e sem complicação.

O que é gastrite, afinal?

Gastrite é a inflamação da mucosa gástrica — ou seja, do revestimento interno do estômago. Esse revestimento tem uma função importantíssima: proteger as paredes do estômago do ácido que ele mesmo produz para digerir os alimentos. Quando essa camada protetora fica irritada ou danificada, surge a gastrite.

Mas aqui vai um detalhe que muita gente não sabe: nem toda dor de estômago é gastrite. Isso é confirmado apenas por exame — geralmente a endoscopia digestiva alta. Muitas pessoas vivem anos “tratando gastrite” que nunca foi diagnosticada de verdade.

Por que a gastrite aparece? As causas mais comuns

Existem várias razões para a mucosa gástrica inflamar. As mais frequentes que vejo no consultório são:

1. Infecção pela bactéria H. pylori

Esta é, de longe, a causa mais comum de gastrite crônica no mundo. O Helicobacter pylori é uma bactéria que consegue sobreviver no ambiente ácido do estômago e causa inflamação persistente. Estima-se que mais de 50% da população brasileira carregue essa bactéria — muitas vezes sem saber.

O problema do H. pylori é que ele pode ficar anos sem dar sintomas e, se não tratado, pode levar a complicações sérias como úlcera gástrica e, em casos mais raros, câncer de estômago.

2. Uso de anti-inflamatórios (AINEs)

Ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno, aspirina em altas doses… esses medicamentos bloqueiam substâncias que protegem a mucosa do estômago. Uso frequente ou prolongado pode causar gastrite e até úlcera. Muita gente usa anti-inflamatório para dor nas costas, artrite ou dor de cabeça sem saber o estrago que pode estar causando no estômago.

3. Estresse e ansiedade

Esse é o que mais aparece nos consultórios das grandes cidades. O estresse crônico altera a produção de ácido gástrico e prejudica os mecanismos de proteção da mucosa. Não é “coisa da cabeça” — é fisiologia real. Pacientes que passam por períodos de muito estresse frequentemente relatam piora dos sintomas digestivos.

4. Alimentação inadequada

Café em excesso, bebidas alcoólicas, alimentos muito gordurosos ou condimentados, refeições irregulares e o hábito de pular refeições — tudo isso agride a mucosa gástrica ao longo do tempo.

5. Tabagismo

A nicotina aumenta a produção de ácido e reduz a produção de muco protetor. Fumantes têm muito mais risco de desenvolver gastrite e úlcera.

6. Refluxo biliar

Em alguns casos, a bile — produzida pelo fígado e que deveria seguir para o intestino — reflui para o estômago e causa inflamação. Essa é uma forma menos conhecida, mas relativamente comum.

7. Doenças autoimunes (gastrite atrófica autoimune)

O próprio sistema imunológico ataca as células da mucosa gástrica. Isso é mais raro, mas importante de diagnosticar porque pode levar à deficiência de vitamina B12 e anemia perniciosa.

O que uma pessoa com gastrite sente?

Os sintomas variam bastante de pessoa para pessoa — e esse é um dos motivos pelos quais o diagnóstico clínico isolado (sem exame) é tão difícil.

Sintomas mais comuns:

  • Dor ou ardência na região do estômago (parte superior do abdome, logo abaixo do peito)
  • Sensação de queimação que piora em jejum ou após comer
  • Náuseas, especialmente de manhã
  • Sensação de estômago “cheio” mesmo após refeições pequenas
  • Azia ou amargor na boca
  • Perda de apetite
  • Arrotos frequentes
  • Em casos mais graves: vômitos e vômito com sangue (sinal de alarme — procure atendimento imediato)

Um detalhe importante: algumas gastrites, especialmente a causada pelo H. pylori, podem ser completamente assintomáticas. A pessoa não sente nada, mas a inflamação está lá, silenciosa, e pode evoluir para úlcera.

Gastrite aguda x gastrite crônica: qual a diferença?

Gastrite aguda aparece de repente — geralmente após um episódio específico como uso excessivo de álcool, uma intoxicação alimentar ou uso de remédio agressivo ao estômago. Costuma ser intensa, mas resolve rápido quando a causa é removida.

Gastrite crônica é a inflamação persistente, que dura meses ou anos. Em geral é causada pelo H. pylori ou por uso crônico de AINEs. Pode ser mais discreta nos sintomas, mas causa danos progressivos à mucosa e tem maior risco de complicações.

Como o diagnóstico de gastrite é feito

Aqui vou ser direta: o diagnóstico definitivo de gastrite é feito por endoscopia digestiva alta com biópsia. Isso não tem substituto.

A endoscopia permite:

  • Visualizar a mucosa do estômago diretamente
  • Identificar grau de inflamação
  • Detectar úlceras, erosões ou outras alterações
  • Coletar material para biópsia e pesquisa de H. pylori

Outros exames que podem ser solicitados:

  • Teste respiratório para H. pylori (não invasivo, muito preciso)
  • Sorologia para H. pylori (exame de sangue, detecta anticorpos)
  • Antígeno fecal para H. pylori (detecta a bactéria nas fezes)
  • Hemograma e B12 para avaliar anemia associada

Qual o tratamento correto para gastrite?

O tratamento depende da causa — e é exatamente por isso que o diagnóstico correto é tão importante.

Se a causa for H. pylori:

O tratamento é a erradicação da bactéria com esquema tríplice ou quádrupla de antibióticos associados a um inibidor de bomba de prótons (IBP, como o omeprazol). O esquema dura geralmente 10 a 14 dias. Após o tratamento, é feito um exame de controle para confirmar que a bactéria foi eliminada.

Importante: não adianta tomar omeprazol sozinho para H. pylori. Sem o antibiótico, a bactéria permanece e continua causando dano.

Se a causa forem anti-inflamatórios:

Suspender ou substituir o medicamento é essencial. Se a pessoa precisa continuar o anti-inflamatório por alguma condição clínica, é possível associar um protetor gástrico. Mas a conversa precisa acontecer com o médico responsável pela prescrição.

Para alívio dos sintomas (em qualquer tipo de gastrite):

  • Inibidores de bomba de prótons (IBP): omeprazol, pantoprazol, esomeprazol — reduzem a produção de ácido
  • Antiácidos: hidróxido de alumínio, carbonato de cálcio — alívio rápido e temporário
  • Sucralfato: forma uma camada protetora sobre a mucosa

Mudanças no estilo de vida — sem isso, nenhum remédio funciona direito:

  • Fracionar as refeições (comer de 3 em 3 horas, porções menores)
  • Evitar jejum prolongado
  • Reduzir café, álcool, alimentos muito gordurosos ou condimentados
  • Parar de fumar
  • Gerenciar o estresse (atividade física, técnicas de relaxamento, acompanhamento psicológico se necessário)
  • Não deitar logo após as refeições

Gastrite tem cura?

Depende da causa:

  • Gastrite por H. pylori: sim, tem cura. Com a erradicação bem-sucedida da bactéria, a mucosa se recupera progressivamente.
  • Gastrite por AINEs: melhora bastante com a suspensão do medicamento e tratamento adequado.
  • Gastrite por estresse/alimentação: controla muito bem com mudanças de hábito, mas pode recorrer se os gatilhos voltarem.
  • Gastrite autoimune: não tem cura, mas tem controle — o acompanhamento é contínuo.

Quando a gastrite pode virar algo mais sério?

Esse é um ponto que não posso deixar de mencionar. Gastrite crônica não tratada, especialmente a causada por H. pylori, pode evoluir para:

  • Úlcera péptica (ferida na parede do estômago ou duodeno)
  • Gastrite atrófica (destruição das células gástrica com perda de função)
  • Metaplasia intestinal (transformação das células gástricas em células intestinais — considerada lesão pré-cancerosa)
  • Adenocarcinoma gástrico (câncer de estômago) — em casos avançados e não tratados

Esses cenários são perfeitamente evitáveis com diagnóstico e tratamento precoces.

Sinais de alerta: quando procurar um médico urgentemente

  • Vômito com sangue ou com aspecto de “borra de café”
  • Fezes pretas ou com sangue vermelho
  • Dor muito intensa e súbita no abdome
  • Perda de peso sem explicação
  • Dificuldade para engolir
  • Anemia sem causa identificada

Esses sintomas precisam de avaliação médica imediata — não espere a consulta de rotina.

Perguntas frequentes sobre gastrite

Posso tomar omeprazol por conta própria? O omeprazol alivia os sintomas, mas não trata a causa. Uso prolongado sem acompanhamento médico pode mascarar doenças sérias e tem efeitos colaterais próprios (incluindo risco de deficiência de magnésio e vitamina B12 com uso muito prolongado). Use com orientação médica.

Gastrite é contagiosa? O H. pylori — principal causa de gastrite crônica — pode ser transmitido pela via fecal-oral (água e alimentos contaminados) e possivelmente pela saliva. A gastrite em si não é contagiosa, mas a bactéria pode circular em famílias.

Leite ajuda na gastrite? Essa é uma crença popular, mas o leite não trata gastrite. Ele pode aliviar brevemente a dor por neutralizar o ácido momentaneamente, mas estimula mais produção de ácido logo depois — e pode piorar sintomas em pessoas com intolerância à lactose.

Preciso fazer endoscopia toda vida? Não necessariamente. A frequência depende dos achados do primeiro exame, da causa da gastrite e da evolução clínica. Seu médico vai orientar o intervalo adequado para seu caso.

Minha mensagem final para você

Gastrite é tratável — mas precisa de diagnóstico correto. Se você está convivendo com sintomas digestivos há semanas ou meses sem investigação adequada, ou se está tomando omeprazol de forma contínua sem nunca ter feito uma endoscopia, chegou a hora de buscar um acompanhamento especializado.

Na minha consulta, fazemos uma avaliação completa: anamnese detalhada, solicitação dos exames adequados ao seu caso e, acima de tudo, um plano de tratamento que funcione para você — não um protocolo genérico.

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